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  • Pra lá e pra cá

    Leider sind meine Tage in Flensburg und in Berlin vorbei. Möchtest Du wissen, worüber ich im Moment schreibe? Klicke einfach hier: http://pralaepraca.wordpress.com/

    Eine Seite auf Deutsch wartet auch auf Dich!

    Viele Grüße!

  • Onde minhas pegadas podem ser encontradas

    Falaram para colocar no blog, então lá vai.


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  • O Orkut dos alemães

    Os alemães finalmente descobriram a maravilha dos sites de relacionamento. Descobriram que a internet não é feita só para resolver pepinos. Serve também para divertir, para pôr pessoas em contato. E que isso, por si só, já vale a pena.

    No entanto, essas redes não se formam globalmente, ignorando os vínculos culturais e territoriais de quem delas particicipa. Usuários do Orkut são, em sua grande maioria, brasileiros. A língua do Orkut é o português, embora a equipe do site só tenha traduzido a página de abertura do Orkut ao português há poucas semanas.

    E o fato é: quanto mais brasileiros hoje, maior a probabilidade de eles convidarem ainda mais brasileiros amanhã. E assim, a tendência não se reverterá tão rapidamente. Isso é bom para os lusófonos e ruim para os demais. Ou você entraria em uma comunidade que se conversa em finlandês? (Ah é? Tente preencher o cadastro, então...)

    Na Alemanha, foi criado um site de relacionamento voltado a estudantes universitários, chamado Studiverzeichnis. Lá é tudo em alemão, e eles estão "em casa". O tema das comunidades deste site espelha o tema das comunidades do Orkut. E cada membro desta rede precisa informar, logo no cadastro, em que universidade estuda. Ou seja, o StudiVZ é uma rede de membros referenciados pela cidade onde estudam e por suas carreiras. Nos últimos tempos, a comunidade contabiliza 10 mil novos cadastros diários.

    Trata-se portanto de uma rede menos aberta que o Orkut (já que procura limitar a entrada de não-universitários) e que tem seu potencial de crescimento centrado nas "redes reais" de amizades e de conhecidos da própria classe, do próprio campus. Sua expansão também não encontra limites no idioma -- o alemão e mais nenhuma língua é o idioma oficial do StudiVZ.

    Estas diferenças de estrutura do site podem influenciar o comportamento dos membros na rede? Sim, penso eu em princípio. Mas não vou arriscar uma resposta definitiva. Vamos ver cada um destes espaços se desenvolve.

  • Os últimos dias

    Faltou registrar aqui as importantes visitas que recebi em setembro. Primeiro, Ronaldo e Bia chegaram lá depois de passar por Hamburgo. Eu sabia que eles chegariam lá pela hora do almoço. Mas não sabia que, justamente quando estava descendo a escada para pôr o lixo na caçamba, veria o rosto do Ronaldo atrás da porta de vidro. Foi legal. Desci com o lixo, subi com os amigos. Naquele dia, à noite, passeamos um pouco pelas ruas de Flensburg e fomos ao Café Central.

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    Depois chegou o Kameoka, de Londres. Perdeu avião, enfrentou os trens alemães, chegou um dia depois do esperado. Mas chegou. E foi legal! Não paramos de conversar um minuto da estação de trem à casa da Sissy. É com o Kameoka que tenho minhas últimas lembranças da fronteira com a Dinamarca.

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  • Voltei com 30 quilos a mais

    Nem quente nem frio. Nuvens pesadas no céu. No penúltimo dia de setembro, enquanto lutava contra as malas, o Spiegel Online repercutia a notícia do vôo 1907. À medida que enchia a mala, tentava esvaziar a minha cabeça. Queria preservar doze meses de mudanças e me desejava mais doze meses de mudanças. Em que direção, é o que não sabia me responder. Mas o trajeto do vôo já estava traçado. E no sábado, depois de olhar para aquela casa cheia de madeira clara, janelas brancas e paredes finas, peguei uma carona com a Mareike até Hamburgo.

    Chegamos bem cedo ao aeroporto e quis logo fazer o check-in. Carregar aquelas duas malas, mais a mochila e ainda uma sacola cheia não estava fácil. Quis despachar logo. E aí a mocinha do balcão da Lufthansa me diz que estou com muito peso. Eu sabia que poderia ter complicações. Só não sabia como desfazer, em alemão, este tipo de complicação.

    O vocabulário é o menor dos problemas. Mas queria saber fazer cara feia (em alemão), queria saber ter a postura de cliente insatisfeito (em alemão) e queria falar bem alto “Que absurdo!”, “Vocês estão malucos?” e “Vá catar coquinho!” (em alemão). Pois pude viajar para lá com duas malas com até 32 quilos de coisas minhas (só uma das malas vazias já pesa 6 quilos). E agora, em Hamburgo, eles falavam que só podia voltar com dois volumes de 23 quilos. E que, se quisesse voltar com tudo, teria de pagar pela diferença de peso. “Mas como, minha senhora? A senhora quer que eu deixe minhas roupas aqui, no saguão do aeroporto?”

    Fui dirigido para o guichê da Swiss – um guichezinho minúsculo em um aeroporto tomado pela Lufthansa. O funcionário pediu para que eu esperasse ali, enquanto procurava as regras pelo computador. Eram páginas e mais páginas de instruções, diretrizes, regulamentos, normas. Constatei que não adiantava falar nada. Liguei para minha mãe, a cobrar do telefone da Sissy. Ela estava acordando. A idéia era que ela confirmasse a informação com a Swiss no Brasil e que um funcionário da companhia no Brasil dissesse ao colega, na Alemanha, que, de fato, o limite era duas vezes 32 quilos.

    Em alemão, como os números começam a ser lidos de trás para frente, chegaram a insinuar que eu estava confundindo o 23 com o 32. Mas, como eu ouvi isso em português e minha mãe também ouviu a mesma coisa há poucos dias de uma funcionária da Swiss Air no Brasil, não havia dúvida. Em português, trinta e dois são trinta e dois, e vinte e três são vinte e três: neste caso, nossa língua não deixa margem para equívoco. Pediram papéis, provas escritas de que eu teria uma “autorização especial” para voltar com as malas pesadas. E, claro, eu não tinha nenhuma autorização especial. Tinha só minha palavra e o bom senso ao meu lado, coisas que, para as empresas nos dias de hoje não valem muita coisa.

    Descobri, para minha surpresa, que ninguém da Swiss trabalha no Brasil em dias em que não saem vôos da Swiss de aeroportos brasileiros. Não é um absurdo? Para mim, basta que um passageiro brasileiro tome um vôo pela companhia de qualquer pista deste planeta, para justificar que alguém lhe dê suporte em português. Porque ninguém é obrigado a saber como discutir “sobrepeso”, “bagagem” e “regulamento” em outra língua. Ou seja, realmente, fiquei sozinho no páreo com a empresa, e ainda sem poder xingar a mãe de ninguém em português (porque ainda não aprendi palavras sujas em alemão). Depois de um bom tempo, o funcionário da Swiss fez a gentileza de autorizar meu embarque sem ter de mostrar cartão de crédito algum. Mas me permitiu, abrindo uma exceção, saindo-se como o benfeitor da história.

    Aí, passei uns minutos comendo um sanduíche e tomando um refrigerante em um desses cafés do aeroporto. Tinha euros contados na carteira. Como uma criança, vi ao lado da Sissy aviões pousarem e decolarem. Tentei fazer da tarde, da minha última tarde na Alemanha algo menos desagradável. Joguei uma água na cara e saí do banheiro como se tivesse tomado um banho. Conversamos bastante e fomos devagar nos despedindo. Estava preparado com lenços de papel em todos os bolsos. E acho que eu, mais que ela, precisei dos lenços.

    Claro que, logo em seguida ao pontual pouso do avião às 5:30 em Guarulhos, a primeira coisa que fiz em São Paulo foi me dirigir à Swiss, escrever e protocolar uma reclamação por escrito. Para minha surpresa, a resposta veio rápida. E para minha surpresa ainda maior, veio em português bastante mal redigido, o que me deu a idéia de enviar meu currículo à companhia. Segue um trecho da resposta.

    “A informação incorreta da franquia de bagagem aconteceu porque somente o Brazil permanace com 2 peças de até 32 kilos. O Departamento de Aviação Civil, no Brasil ainda não assinou a mudança de franquia para 23 kilos, como em todos os outros destinos no mundo. Infelizmente, ocorreu que a agente de checkin e posteriormente da loja da Swiss não estavam cientes da excessão para o Brazil.”

    Bom, passado o susto, fiz as contas e concluí que ganhei, em média, 2,5 quilos por mês, enquanto morei fora. Fui com duas malas, uma de 14,4 kg e outra de 22,9 kg. Voltei com 32,5 kg e 17,7 kg. Além disso, quando encontrei minha mãe em maio, aproveitei para deixar com ela uns cinco quilos. Com o Pablo, larguei também uma caixa e um livro bem gordo, que juntos devem pesar outros cinco quilos. Em Flensburg, a Sissy tem roupas, livros e outros papéis que não pude trazer. Coloquei tudo isso em cima da balança de banheiro e deu oito quilos. Mas depois olhei para o lado e ainda faltaram uns papéis... Na casa dos pais dela, esqueci um conjunto de moletom e uma camiseta. Enfim: fui com 37,3 kg e, ao todo, agora tenho 70,2 kg. 2,5 kg a mais em cada um dos doze meses que passei por lá.

    É por isso que, vença quem vencer as eleições, minha promessa terá de ser cumprida: até o fim do ano, irei me desfazer de 40% de todos os papéis que acumulei nesta vida. Porque senão não dá. Nem para mim e nem para a Swiss International Air Lines.

  • A despedida

    Naja, die Abschiedszeit ist gekommen. Ein letzter Rundgang auf der Hauptstraße, ein letzter Besuch bei einigen Freunden, die letzte Cola auf der Rechnung in einem Café, ein letzter Blick auf den Kirchenturm... Ein letztes überraschendes Geschenk und eine letzte Korrektur meiner Arbeit über Entwicklung waren auch ein Teil. Jetzt muss ich die Daumen drücken, dass es mit dem Check-in, mit dem Abflug und der Landung des Flugzeugs und mit dem Zoll klappt.

    Danke an alle Besucher des Weblogs. Vielen Dank an die Freunde, die meine Berichte gelesen haben, mit mir einverstanden sind oder mir widersprochen haben, und auch an die, die mich korrigiert haben, wenn ich etwas Falsches geschrieben habe. Und liebe Grüße an alle, die mir geholfen haben – nah oder fern – in diesen letzten zwölf Monaten meines Lebens. Im Endeffekt ist es gut, Geschichte (wie diese über mein Leben) zu lesen. Aber viel besser ist es zu helfen, diese Geschichte aufzubauen.

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    Pois é, chegou a hora da despedida. Uma última volta pela rua principal, a última visita a alguns amigos, a última coca-cola na comanda do café, uma última espiada na torre da igreja... Um último e surpreendente presente e a última revisão no trabalho de desenvolvimento também fizeram parte. Agora é torcer dê tudo certo com o check-in, a subida e a descida do avião e a alfândega.

    Obrigado a todos os visitantes do blog. Muito obrigado aos amigos que acompanharam minhas notícias, aos que discordaram ou concordaram comigo e também àqueles que puxaram minha orelha quando escrevi alguma coisa errado. E um abração para todo mundo que me ajudou – de perto ou de longe – nesses últimos doze meses da minha vida. Afinal, ler história (como esta, sobre minha vida) é bom, mas ajudar a construí-la é ainda melhor.

  • Ir e não ir

    Introdução – A viagem chega ao fim e este blogue talvez perca seu sentido. Comunicar o que, sobre o que e a quem, depois que eu voltar? Mas antes de o blogue entrar em crise de identidade, eu gostaria de fazer um balanço. Brasil e Alemanha, afinal o que é o melhor de cada país? Por que lamentar e por que comemorar a volta ao Brasil? E, no final das contas: devo mais é chorar ou me alegrar com o fim do período de intercâmbio?

    Mídia –
    Em si, jornalismo é uma profissão estressante aqui, ali, em qualquer lugar. É difícil ler e escrever reportagens em alemão. É difícil exercitar-se em uma profissão que exige o completo domínio do idioma como jornalista, professor, poeta. Mais difícil, porém, é ter que voltar para o Brasil e se acostumar com a pequenez da mídia brasileira. E pequenez, aqui, em quase todos os sentidos. A começar pela falta de coragem generalizada para por os pingos nos Is. Com raras exceções (vez ou outra reconhecida por algum prêmio), vigora uma complacência com o estado das coisas e uma falta de reflexão, que justifica os absurdos que mancham a honra de nosso país. Cada sociedade tem a imprensa que merece. E não é à toa que o Brasil é o que é. Na imprensa brasileira o que há é um acusacionismo disfarçado de espírito crítico e um jogo de interesses que não resultam em construção ou fortalecimento da cidadania. Enfim, no quesito mídia, sem dúvida, 1 a 0 para a Alemanha.

    Letras – Atrás do inglês, o alemão segue como segundo idioma na Wikipedia, por exemplo. As longas palavras já não me assustam e começo a construir textos complexos com menos erros. A fonética também soa familiar e não tão dura, como costuma ser caracterizada. Mas nada como o português falado no Brasil! Está certo que nos últimos dez anos, li muito mais textos científicos do que literários, mas mesmo assim que saudade de nossa literatura! Ai, ai, ai... 1 a 0 para o Brasil.

    Ensino –
    São bem diferentes os sistemas de ensino brasileiro e alemão. Mas aqui há um sistema de ensino público bem forte. Conhecimentos em sociologia, política e economia são matérias a partir da sétima série. Inglês é matéria obrigatória e bem aprendida por todos, a partir da quinta série. Quem freqüenta o ginásio tem a oportunidade de aprender outras duas línguas estrangeiras (as três mais populares são francês, espanhol e latim).
    Além disso, ouço dizer que os professores na Alemanha estão entre os mais bem remunerados da Europa. O problema é que nem todas as crianças chegam ao ginásio. Na quarta-série, elas são avaliadas e recebem da escola uma recomendação. Algumas vão para o ginásio e futuramente (depois de estudarem mais 9 anos), podem freqüentar uma universidade. Outras são destinadas à Realschule e futuramente podem cursar uma escola técnica superior. Os alunos com pior desempenho vão para a Hauptschule, estudam até a nona série e podem trabalhar em profissões pior remuneradas. Não são habilitados a cursar uma universidade. Acho este sistema muito cruel, pois determina o futuro de uma pessoa quando ela tem apenas 10 anos de idade! Não considera que a criança que hoje vai mal, pode amanhã melhorar. Enfim, nega as chances para uma pessoa em seus apenas 10 anos de idade. Enquanto isso, no Brasil, os candidatos falam que educação vai ser a prioridade dos próximos quatro anos. Bom, sabemos como a educação vai no nosso país... A qualidade do ensino é ruim, mas pelo menos há um pressuposto teórico de igualdade de oportunidades. E isso é fundamental. Empate: 1 a 1. Irrita-me esta mania dos alemães de querer classificar tudo e todos.

    Universidade –
    Ultimamente o que mais se discute na Alemanha não é o ensino à distância, a introdução de modernos currículos ou o salário dos professores. O que se discute é a introdução de taxas semestrais aos estudantes. Acabei de ler uma entrevista com um reitor que estudou o assunto e comprovou que o estudante, mesmo depois de concluir os estudos, não devolve para a sociedade o que lhe foi investido para sua formação. Protestos organizados por organizações estudantis não conseguiram evitar a introdução de taxas de, em média, 500 euros por semestre. E no Brasil? Consegue um estudante devolver à sociedade aquilo que lhe é investido durante sua formação universitária? Ou devemos, por meio da gratuidade, deixar aberta a oportunidade para todos concluírem um curso superior? Acho que aqui está uma típica questão cuja resposta não se encontra na adoção do exemplo que vem de fora, mas na reflexão da condição específica de nosso sistema de ensino, do Estado e da sociedade brasileira. Aqui não tem jogo, não tem placar.

    Macroeconomia – A Alemanha vive seus tempos de vôo de galinha. Depois de períodos curtos de crescimento modesto, volta a estagnar. Do mesmo modo que a Copa do Mundo trouxe alguma alegria, mas não a taça do mundo, junho e julho foram bons meses, mas os indicadores minguaram em agosto e setembro. Desemprego acima dos 10%, com suave tendência para baixo. O Brasil não está muito melhor: é o país que está segurando para baixo o crescimento médio da América Latina. Não faz mal: o crescimento ainda que lento e as políticas sociais (ainda que imperfeitas) melhoraram a distribuição de renda e reeleger o presidente. Aqui, o resultado é 0 x 0.

    Moeda e bancos –
    Acho o euro mais bonito que o real: cédulas coloridas, de diferentes tamanhos e difíceis de serem falsificadas. O euro mostra até agora que o desafio da integração pode ter um final feliz com políticas sérias (e também com austeridade fiscal). A estabilidade do valor do euro tem como base a força econômica da Europa e também o generalizado rigor na contenção dos gastos públicos. A Angela Merkel está aí para isso e está se dando bem. Agora, se o assunto é banco, não tem o que discutir. Nem no dia de encerrar a conta passei mais de quinze minutos no banco. Quando reclamei da cobrança indevida de uma taxa, também foi tudo muito rápido e descomplicado. Aconteceu comigo aqui de de repente eles me subtraírem, em prestações pequenas, o total de 11,21 euros. Mas em dois ou três dias, o dinheiro já estava de volta na minha conta. No Brasil, não há atendimento rápido nem com lei. Além disso, o horário de atendimento é mais amplo. 1 x 0 para a Alemanha.

    Burocracia –
    Para validar meus estudos em Flensburg, tive que amargar o rochoso labirinto burocrático alemão. Depois disso, o leitor há de convir que já posso ser considerado um expert nesse assunto. Tudo comecou na própria universidade. Passaram-se quase sete meses do dia que entreguei minhas resenhas até o dia em que recebi a nota final da disciplina. Tive de juntar quatro desses comprovantes. O segundo passo é levar até o escritório internacional da universidade para eles elaborarem um histórico escolar. Eu ainda perguntei: “Dona Isabel, a senhora tem certeza de que sua assinatura basta e de que ninguém mais por aqui precisa validar este papel que a senhora está me dando?” E ela respondeu: “Olha, meu chefe é o reitor da universidade. Você acha que um histórico precisa ser autenticado pelo reitor?” Bom, no dia seguinte, viajei até Kiel, a capital do estado e, com um ônibus (como pode ser o transporte de uma cidade daquela tão caro quanto Berlim?) cheguei ao Ministério da Economia, da Ciência e do Transporte. O guarda, na entrada, falou que eu estava em prédio errado. Eu bati o pé e disse que tinha certeza de que tinha de estar lá. Aí chegou o Seu Thomas na portaria. Eu havia falado com ele na véspera, por telefone. Ele nos acompanhou até a sala dele (recentemente houve uma reforma ministerial, havia um monte de caixas de mudança pelos corredores) e pediu-me para sentar. Sobre a mesa dele, muitos fichários e pastas com papéis. Ao olhar para meu histórico escolar, disse: “Hmmm... isso é muito ruim.” Sem dizer mais nada, telefonou a Flensburg: “Dona Isabel, boa tarde, aqui é o Sr. Thomas do Ministério. A Sra. confirma que assinou o histórico escolar do Sr. Thiago Gui-ma-raes? Não, é porque no meu sistema” – disse, rolando uma página da internet para cima e para baixo – “consta que a coordenadora do Escritório Internacional é a Dona Ulrike. A Senhora é apenas uma funcionária. Mas a Sra. sabe que só a coordenadora pode assinar esses documentos, não é mesmo, Dona Isabel?” O Sr. Thomas, que foi tão simpático ao nos atender no térreo estava se mostrando um perfeito burocrata alemão em seu escritório, a portas fechadas. “E ademais falta o brasão. Não vejo aqui o brasão da universidade. Não por mim, mas o Ministério do Interior costuma ter regras extremamente rígidas para a certificação desses documentos...” No fim, ele visitou um colega na sala da frente e o colega deu um visto em uma folha que reconhecia a assinatura da Dona Isabel. Esta era a pré-validação. Saí de lá e fui direto ao Ministério do Interior. A entrada do Ministério do Interior é o lugar mais protegido em que já entrei. Deve ser mais fácil um terrorista levar uma bomba na mala de mão para dentro de um avião do que uma senhora entrar com marcapasso no Ministério do Interior de Schleswig-Holstein para tirar uma dúvida sobre heranças. Depois de caminhar por um longo corredor, entrei em uma sala à esquerda. Lá, a funcionária nos atendeu atrás de uma ampla mesa (eu precisaria esticar tanto o braço para alcançar as balas e chocolates que estavam sobre a mesa, que desisti). Na parede, desenhos e fotos dos filhos dela. Ela pediu meu passaporte e validou meu histórico escolar, sem nenhum problema, ao contrário do que o Sr. Thomas anunciou. Ao fim, deu uma folha com um código. “Pague no banco, em quarenta dias, a taxa de 13 euros e informe este código para sabermos que foi o senhor quem pagou por este documento.” E entregou-me seu cartão. Pronto, meu histórico estava definitivamente acreditado. Mas a história não acabou. Seria preciso realizar mais uma viagem com o histórico escolar, pré-certificado e agora certificado. É preciso que o documento chegue à capital federal, Berlim. Uma amiga, de boa fé, resolveu me ajudar e fazer o que precisa ser feito em Berlim: levar o histórico à Embaixada brasileira e pagar uma taxa de 5,75 euros. Mandei o papel pelo correio na semana passada e hoje minha amiga conseguiu ir à Embaixada brasileira. Normalmente, três dias para ficar pronto. Mas, como a funcionária ficou doente, não tem prazo para o serviço ficar pronto. Portanto, não tenho prazo para meu histórico ser reconhecido pela USP. Contei essa historinha para mostrar que a burocracia alemã talvez seja tão complicada ou até mais cara que a brasileira. E quando você depende das duas burocracias então, xiiii... Os dois países poderiam melhorar muito. 0 a 0.

    Compras – Aparelhos elétricos e eletrônicos são bem mais baratos na Alemanha. Produtos industrializados também são mais baratos. Aparelho de som, aspirador de pó, enfim, quase tudo que precisa ser ligado na tomada, sai mais em conta na Alemanha. Por exemplo: suco de laranja. Até hoje, custo a acreditar que o suco de laranja é mais caro em São Paulo do que em um supermercado na Alemanha. A laranja, não, é mais cara aqui. Mas o que justifica a diferença do preço do suco? Os impostos? O custo da mão-de-obra? A menor escala de produção? Obviamente, frutas, carnes e roupas são bem mais caras. Mas há uma grande variedade de produtos, vindos de todas as partes do mundo. Indo ao supermercado, percebo como a Alemanha é aberta ao exterior. No final das contas, os dois países tem vantagens e desvantagens. Na hora de pagar, você quer velocidade no atendimento ou cordialidade? Brasil ou Alemanha? Sérias dúvidas neste quesito. 1 a 1.

    Comida – Vez ou outra comi uns doces maravilhosos. Não renunciei a nenhum dos que tinham algujma daquelas frutinhas vermelhas, azuis ou pretas por cima. Cheguei a repetir tortas com maçã, com queijo. Enfim, cometi todos os pecados de quem não quer engordar. E por sorte não engordei! Além disso, há cada prato com batatas por aqui. Pena que não tive a luz de comprar um livro de receitas no primeiro dia de viagem. Além disso, as salsichas que são vendidas por aí e mesmo os kebabs agradam o paladar. Mas é impossível deixar de ter saudades da comida mineira, do churrasco, da comida nordestina, da feijoada, do estrogonofe que minha mãe prepara, do pastel de feira com caldo-de-cana e até da esfiha do Habib’s. Placar apertado, 3 a 2 para o Brasil. Só uma observação: A Alemanha é um país grande para os padrões europeus e eles mesmos não sabem bem o que o alemão do sul tem em comum com o alemão do norte. A língua é diferente, as casas são diferentes, as comidas são diferentes e até a pontualidade é diferente. Mas em todo lugar, eles torcem o nariz para quem, como eu, pede Bratwurst com mostarda e ketchup. Não siga meu exemplo, se o que você busca é ser simpático com os vendedores de salsicha.

    Conclusão – Vemos então que os dois países oferecem coisas muito interessantes a experimentar. Tentei fazer uma apreciação razoável do que encontrei por aqui e, depois de somar todos os resultados parciais, deu empate. Mas minha volta já está certa: chegarei em Guarulhos no dia 1/10, o dia das eleições. Viva a Alemanha, viva o Brasil!

  • Aniversário

    Obrigado a todo mundo que me escreveu alguma coisa, que me telefonou, que pensou em mim ou que, mesmo apressadamente, pendurou algo no Orkut. Tive um aniversário muito bom no exterior, apesar de estar longe de muita gente querida. Acordei às seis da manhã com um buquê de rosas ao meu lado. Pelos primeiros raios do sol percebi que as rosas eram mesmo bonitas. Mas voltei a dormir. Lá pelas dez da manhã, depois de tomar um bom banho, saborear sozinho um prolongado café-da-manhã e atualizar o blogue, fiz uma caminhada até o Museumsberg de Flensburg. Até agora não tinha ido lá. O principal objetivo desse museu é mostrar o interior das casas nesta região da Alemanha dos últimos quatro séculos. Os gigantescos armários holandeses, os diferentes tipos de chão e teto, as inscrições no alto da porta... Tudo muito bem preservado, mas não muito didático. Faz parte do museu a exposição de pintores alemães expressionistas não muito famosos. A arte era boa de se ver, mas não ao som de bate-estaca e de martelo, que do térreo ecoava pelo prédio inteiro. Às quinze para as três, quando voltei, um bolo estava em cima da mesa. Espetavam a gostosura dez velas (dessas que a gente sopra, sopra, mas não consegue apagar). E ao lado do bolo, cinco pacotes com presentes. Abri os pacotes um por um, ainda sem entender por que tantos presentes. Primeiro, desempacotei um bloquinho de Post-Its coloridos com uma caneta preta. Depois, uma camisa realmente fina – presente dos pais da Sissy – e uma caixa de chocolates. Ganhei também um jogo de cartas chamado Wizard da Jasmin e do Roman, que nem estão mais aqui. Por fim, um CD com músicas de Taizé. Os convidados chegaram um pouco mais tarde: Ricarda e Michael, Ruth, Anna Engbarth. Em torno da mesa da sala, a tarde de aniversário foi bastante agradável. Chá, suco de maçã e coca-cola para quem quisesse. Ninguém quis o suco de maçã e a tarde foi mais longa que o previsto. E no final do dia, fui convidado pela Sissy para jantar. Depois de uma maravilhosa comida, tomei um pouco de vinho, fiquei com sono e fui dormir. Este foi meu aniversário. Legal para caramba, vai? Mais legal ainda é saber que o mais novo sobrinho meu também fará aniversário no 13 de setembro!

  • Paz

    Zu bestimmten Zeiten in der Geschichte setzten sich manche Christen besonders für das Teilen ein. Im vierten Jahrhundert schrieb Johannes Chrysostomus: "Streitigkeiten und Kriege brechen aus, weil einige sich anzueignen versuchen, was allen gehört. Es ist, als würde sich die Natur darüber empören, dass der Mensch sich der kaltherzigen Wörter mein und dein bedient und dort Spaltung stiftet, wo Gott Einheit gesetzt hat."

  • Agosto de 2006

    Agosto passou. No blog, o mês passou em branco. Eu é que não queria nenhum cachorro louco comigo aqui na Alemanha. Mas, na verdade, o mês trouxe mais sorte do que azar. Vamos fazer uma breve retrospectiva dos melhores momentos.

    1 de agosto – Depois de um semestre cansativo e, sobretudo, depois de uma pesada mudança de Berlim para Flensburg, resolvi dar-me uma pequena pausa. E, no começo do mês, estávamos a Jasmin, o Roman, a Sissy e eu em Taizé, na França. Dez dias sem e-mail, sete dias sem celular. Hoje me pergunto quando terei novamente esta oportunidade. E, claro, a oportunidade de estar na igreja mais bonita em que já estive. Taizé é, para mim, a quebra de um paradigma.

    6 de agosto – Voltamos à Alemanha. Estávamos com o carro a diesel do pai da Jasmin, viajando pela Autobahn francesa. Que não permitem viajar tão rápido como na Alemanha (onde senti o frio na barriga que dá ao pilotar um carro a 220 km/h, sem ter o medo de ser multado). Chegamos a Freiburg, uma das mais belas cidades turísticas do estado de Baden-Württemberg. Passamos o dia lá. Conheci o mosteiro, os portões, mas bonito mesmo é passear por aquelas ruas e olhar as cores daquela cidade. E depois seguimos para Marburg, onde chegamos à noite.

    8 de agosto – Marburg também é uma cidade linda, com a igreja gótica mais antiga da Europa: a Elisabethkirche. Também é a cidade da loja de chá da mãe da Jasmin, localizada ao Steinweg 1.

    9 de agosto – De trem, ainda com muita bagagem, barracas de camping, sacos de dormir e colchonetes, voltamos a Varendorf. Aniversário da avó da Sissy. A Frau Simon chamou boa parte da vila para sua casa, à beira do riacho. Os cavalos à vista do outro lado relinchavam. As Bratwurst foram poucas para o tanto de convidados, e a irmã da Sissy percebeu que a data de validade do ketchup já tinha passado. “Consumir até 2002”, ela leu... Mas até onde fiquei sabendo, ninguém teve dor de barriga e a festa foi boa. Teve até jogo de futebol no gramado. Parte alta contra parte baixa da vila. A parte alta, pela qual eu joguei como goleiro, ganhou de lavada.

    12 de agosto – Grande festa de aniversário da avó da Sissy. Uns 80 convidados: 40 familiares e 40 amigos, entre eles colegas da escola, companheiras de viagens, o pessoal que pinta quadros com ela... Comida, bebida e discursos a partir das 11 da manhã e visita ao Museu da Agricultura.

    13 de agosto – Morre a cachorrinha da Sissy. No dia anterior ela já estava muito mal. Acordou, perambulou ao redor da árvore, enfiou-se entre as flores do jardim, deitou-se e, ofegante, tentava cavar terra. Quando todos já estavam prontos para a festa de aniversário, a mãe e a irmã da Sissy levaram a Amsel para o veterinário. Emergência mesmo. Labrador preta, bonita. Não me esqueço do primeiro dia em que fui a Varendorf e ela estava deitada em seu canto na cozinha, ao lado dos dois potes de metal, um para a água, outro para a comida. Mas no fim do dia 12, a cadela voltou a passar mal. E no domingo, foi levada ao veterinário. E morreu. Enterramos a Amsel ao pé de uma árvore. A Sissy e eu levamos velas e ramos. E, apesar da triste atmosfera e até para justamente afastá-la, resolvem ler uma carta que escrevi em alemão, enquanto uma torta de banana foi servida à família da Sissy: anunciei que havíamos nos noivado. O pai, imediatamente, foi buscar uma elegante garrafa de champanhe, dessas que intimidam. Eu, que já estava nervoso, tremendo ao ler as palavras em alemão que estavam na minha frente, só parei de tremer depois de horas. Culpada também foi aquela garrafa de champanhe! Mas logo depois liguei para o Brasil. Minha mãe precisava saber da carta (devidamente traduzida para o português, claro). E, para encerrar o dia, o irmão mais velho da Sissy chamou uns vinte companheiros de sua Verbindung para a festa de integração de um novo membro.

    14 de agosto – À noite, fomos a um restaurante em Lüneburg. Pedi peixe à garçonete finlandesa. Mas, antes, o pai da Sissy fez um discurso, integrando-me à família. Tomamos vinho.

    15 de agosto – Tomei um pouco mais de vinho em uma conversa com os pais da Sissy na confortável sala de estar. Foi aquele tipo de conversa equilibrada, com mais razão e menos clima de festa. Foi aquele tipo de conversa que se precisa ter, antes de ir dormir com a consciência tranqüila.

    16 de agosto – Voltamos a Flensburg. Mas, no meio do caminho, havia Hamburg. Fizemos um dia em Hamburg. E neste mesmo dia, comecei a arrumar os papéis que trouxe comigo de Berlim. Os papéis são minha paixão, minha maldição, meu desgosto e minha solução. Mesmo na Alemanha, perco-me entre livros, textos copiados da faculdade, cartas, informativos, panfletos, folhetos, folders, flyers, documentos... Lembrei-me da minha promessa do ano passado: eliminar 40% do que tenho em papéis no Brasil, mais precisamente, nos armários do apartamento da minha tia, completamente abarrotados enquanto estou longe. Mas por aqui a situação também não é muito melhor. Por isso, neste dia comecei a arrumar tudo. Só parei três dias depois, cansado e com o cesto de lixo lotado. Foi bom.

    20 de agosto – Comecei a escrever seriamente meu trabalho sobre desenvolvimento e cidades para a Universidade em Berlim. Estou entusiasmadíssimo com o tema e tenho percebido que ler cem páginas da Saskia Sassen três vezes não me cansou tanto como eu esperava. Um excelente sinal.

    30 de agosto – Um telefonema da minha irmã, enquanto aproveitava a siesta. “Thiago, ligou um cara da Alemanha e falou que você foi aceito no mestrado em Hamburgo. Ele falou que vai ligar para você aí...” Euforia total. Levanto da cama já pulando. Vou à internet e vejo um e-mail estranho. Lá está uma mensagem inédita em minha vida. “É com alegria que gostaríamos de informar que o Senhor foi aprovado no mestrado em Jornalismo e Comunicação da Universidade de Hamburgo.” O curso começa já em outubro. E eu nem sabia disso! Enfim, não assistirei às aulas, mas fiquei feliz pelo resultado.

    31 de agosto – Anna Engbarth nos convidou para comer tortillas mexicanas na casa dela e tomar vinho. Mas antes, tive o desprazer de tirar um extrato da conta corrente no banco.

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